Tetralogia Elena Ferrante (e porque ela é essencial na sua vida)

Janeiro foi tão longo que deu para ler os quatro livros da Série Napolitana, da autora Elena Ferrante. 

Fui bastante relutante em começar a tetralogia. Já contei aqui que eu comecei umas duas vezes e desisti. O primeiro livro Amiga Genial começa com o sumiço de Lila Cerullo que desapareceu sem deixar vestígios. Lenu, ou Elena Greco sabe que desaparecer sempre foi um desejo da amiga, a ideia dela era se dissolver, como se nunca tivesse existido.

Para se agarrar a memória da amiga, e de si mesma, Elena escreve e descreve lindamente tudo o que ambas viveram. Da infância pobre em um dos bairros mais perigosos de Nápoles até a velhice.

Mas Gabi, como uma história de uma amizade rendeu quatro livros e milhões de livros vendidos no mundo?

Pode parecer um romance raso sobre as experiências e vivências de duas mulheres durante a vida, mas a narrativa criada pela autora vai muito além do que eu posso te contar, ou pela sinopse dos livros. A história começa na segunda metade do século XX, em uma Itália devastada pós-guerra, é nesse contexto que Elena Ferrante nos apresenta os personagens, não apenas as famílias Cerullo e Greco, mas também os Solara, os Caracci, os Airota, os Sarratore. A escrita de Ferrante é capaz de inserir uma infinidade de personagens ao longo dos quatro livros, com naturalidade, mesmo em dinâmicas complexas, sem nunca perder o foco em Lila e Lenu.

Sinceramente, eu não sei como te convencer, como essa série de livros pode ser essencial na sua vida. Mas acredite em mim, ELA É! hahahahah 

Apesar de se passar na Itália, para mim ela foi um panorama de assuntos e movimentos importantíssimos da década de 50 até os anos 2000 no mundo todo. Quando eu falo isso, quero dizer que, durante os livros nos deparamos como:

  • O estudo não era obrigatório, pelo contrário, era um privilégio poder continuar na escola, se fosse mulher então, algo raríssimo (a Lenu conclui a graduação, já a Lila mal termina o primário);
  • Violência contra a mulher era não só normal, mas algo bem visto pela sociedade para “endireitar” a esposa, filha, etc, etc;
  • Aliás a violência permeia a história inteira, do começo ao fim;
  • Casamento precoce? Normal! A Lila casa aos 16 anos;
  • Virgindade? Deveria ser mantida até o casamento, na faculdade, Lenu sofre pelas escolhas que fez;
  • Divórcio? Ambas são ignoradas pela família após saírem de um casamento.

Acredito que a tetralogia é basicamente um relato completo e complexo da tentativa de Lila e Lenu, cada uma a seu modo, de se libertarem da vida miserável, da exploração e violência à qual nasceram fadadas.

Entre relatos da vida, vemos nascer o fascismo, o comunismo e o crescimento da Camorra (organização criminosa italiana). Vemos também a consciência de uma coisa linda chamado feminismo. É a transição da exploração, violência cotidianas para a independência, com todas as suas dores e delícias.

É um livro sobre privilégios também. Duas pessoas que saíram do mesmo lugar, uma com a possibilidade de estudar e a outra precisando casar para sustentar uma família. Vemos durante os livros como isso reflete na experiência de vida de cada uma, o que eu achei incrível.

Falei muito sobre o contexto dos livros e pouco da história. O que eu posso te falar é que eu não mudaria uma vírgula dos livros. É uma mistura de romance com um rico detalhamento histórico, sobretudo é uma história de muitas vidas. Me lembrou, pela complexidade, Cem Anos de Solidão, mas pode ser coisa da minha cabeça e pela quantidade de personagens.

Se você terminou esse texto pensando, AH QUERIA TANTO LER, MAS NÃO TENHO TEMPO, JÁ QUE SÃO QUATRO LIVROS, te respondo, eu também não tenho tempo. Eu também trabalho, tenho tarefas do lar, faço academia.

Todos temos tempo para o celular, certo? É só dosar essa atenção para a leitura. O maior inimigo do livro não são os dispositivos digitais de leitura, mas sim, o tempo desperdiçado diariamente com as redes sociais.

PS: Quando terminei o primeiro livro supus que era uma biografia da própria autora, já que ela é Elena, assim como a Lenu e pesquisando descobri que a identidade da autora é uma incógnita! Ninguém sabe direito quem é ela, mas fato que a pessoa Elena Ferrante não existe, é apenas um pseudônimo que ninguém sabe ao certo de quem. PS2: A HBO lançou no ano passado uma série sobre os livros QUERO ASSISTIR!

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