Livros de ficção sobre violência contra mulheres

*esse texto possui gatilhos de agressão contra mulheres e relacionamentos abusivos 

Fiquei um tempão pensando se fazia resenha sobre esses os livros, Dias Perfeitos e  Você. Já comecei e desisti. Sabe por que, principalmente?  Porque violência contra mulheres está longe de ser um enredo fictício. Foram livros que me deixaram angustiada, chateada e fiquei extremamente mal lendo. Mesmo sem ter passado nem perto de situações como de relacionamento abusivo ou agressivo, a empatia com as personagens e saber que existem mulheres reais que passam por situação semelhante TODOS OS DIAS, é impossível não se sensibilizar.

Ambas histórias tem semelhanças, as personagens querem ser escritoras, são livres, até que por acaso conhecem um homem, sem nenhuma intenção, mas eles acabam tornando-se obsessivos por elas. As personagens acabam sendo torturadas por homens que, em algum momento, chegaram a confiar. E por mais que algumas passagens descritas sejam surreais, a situação que permeia as histórias pode ser a mesma que você, sua amiga, sua mãe vivem.

Eu terminei o livro do Raphael Montes e da Caroline Kepnes com um gosto amargo na boca, podia ser só ressaca literária, mas na verdade, em dias tão sombrios como esses que nos esperam, era apenas desgosto com a vida mesmo.

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Dias Perfeitos de Raphael Montes é classificado como romance (cêis tão loucos né?!!!)  O protagonista do livro é Téo, um jovem e solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e dissecar cadáveres nas aulas de anatomia.  Num churrasco a que vai com a mãe contrariado, Téo conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Clarice está escrevendo um road movie de nome “Dias perfeitos”. O texto ainda está cru, mas ela já sabe a história que quer contar: as desventuras de três amigas que viajam de carro pelo país em busca de experiências amorosas. Téo fica viciado (OBCECADO é a palavra) em Clarice: quer desvendar aquela menina diferente de todas que conheceu. Começa, então, a se aproximar de forma insistente. Diante das seguidas negativas, opta por uma atitude extrema: desfere um golpe na cabeça dela e, ato contínuo, sequestra a garota. Elabora então um plano para conquistá-la: coloca-a sedada no banco carona de seu carro e inicia uma viagem pelas estradas do Rio de Janeiro — a mesma viagem feita pelas personagens do roteiro de Clarice.

Passando por cenários oníricos, entre os quais um chalé em Teresópolis administrado por anões e uma praia deserta e paradisíaca em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita: Téo a obriga a escrever a seu lado e está pronto para sedá-la ou prendê-la à menor tentativa de resistência. Clarice oscila entre momentos de desespero e resignação, nos quais corresponde aos delírios conjugais de seu sequestrador. O efeito é tão mais perturbador quanto maior a naturalidade de Téo. Ele fala com calma, planeja os atos com frieza e justifica suas decisões com lógica impecável.

A capacidade do autor de explorar uma psique doentia é impressionante — e o mergulho psicológico não impede que o livro siga um ritmo eletrizante, digno dos melhores thrillers da atualidade. Dias perfeitos tem clima sombrio e claustrofóbico, personagens em tensão permanente e diálogos afiados. Angustiante e repleto de reviravoltas, o livro é uma história de amor (ISSO NÃO TEM NADA A VER COM AMOR!) obsessivo e paranoico que consolida Raphael Montes como uma das mais gratas surpresas da literatura brasileira.

Acho que depois do Jantar Secreto e esse livro, eu não sei se eu considero o Raphael Montes um gênio ou um louco, sério mesmo. Nessa sinopse dá pra ter uma boa ideia do enredo, mas a história toda é repleta de um surrealismo, impressionante.  Não gostei do final por motivos óbvios que vocês também não irão gostar, mas porque se formos trazer mais realidade para a história, é difícil não ter nenhuma ponta solta.

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Você,  de Caroline Kepnes  conta a história de uma aspirante a escritora linda e atraente entra na livraria do East Village onde Joe Goldberg trabalha, ele faz o que (quase) qualquer pessoa interessada faria: pesquisa no Google o nome que consta em seu cartão de crédito.

Para a sorte de Joe, existe apenas uma Guinevere Beck na cidade de Nova York, e ela posta incessantemente nas redes sociais tudo o que ele precisa saber: que ela é apenas Beck para os amigos, que frequentou a Brown University, mora na Bank Street e estará em um bar no Brooklyn esta noite – o lugar perfeito para um encontro ao acaso.

Ela ainda não sabe, mas é a mulher perfeita para Joe. E quando Joe começa a orquestrar obsessivamente uma série de eventos para garantir que Beck caia em seus braços, ela acaba não resistindo às suas investidas.

Passando do papel de stalker para namorado, Joe transforma-se no homem perfeito para Beck, ao mesmo tempo em que remove sorrateiramente todos os obstáculos no caminho dos dois. Mas também há muito mais em Beck do que sua fachada perfeita, e o relacionamento mutuamente obsessivo do casal rapidamente se desdobra em um turbilhão de consequências mortais.

Um relato devastador de uma farsa implacável, Você é um suspense arrebatador sobre vulnerabilidade e manipulação na era das redes sociais, capaz de provar que o amor  (de novo, não é amor!) também pode ferir. E muito.

Primeiro, esse livro virou uma série que chega 26 de dezembro no Netflix com o fiel nome de You, e é protagonizada pelo eterno Dan de Gossip Girl, eu não sabia disso e descobri pesquisando pra esse post, vi o trailer e achei bem próximo ao livro. Mas voltando pra resenha. A sinopse consegue ser um pouco melhor que o livro, porque além dos motivos óbvios, o título não é por acaso, a palavra você, para falar sobre a Beck é usada incansavelmente. Coisas surreais também acontecem, mas esse livros tem momentos de puro tédio, aliás achei que o Dan será um ótimo Joe.

Agora, se eu recomendo os livros?  Sinceramente não consigo decidir. Fico achando terrível um assunto tão sério quanto esse ser entretenimento literário, mas também acredito que não podemos varrer as agressões contra as mulheres para debaixo do tapete. Então não tenha apenas estômago forte. Nós, mulheres, precisamos de força todos os dias. 

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